A evolução da intolerância religiosa no Brasil: até onde iremos permitir?

18 jul
Na imagem, tomada de Lisboa e pastor chutando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida

Na imagem, tomada de Lisboa e pastor chutando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida

Dados apontam que a os católicos deixarão de ser maioria no país em 2030, ficando empatados com os evangélicos até meados de 2040, passando estes então a ser a maioria.

Tenho acompanhado a questão, por interesse particular, já faz um tempo (tenho até hoje o caderno especial da Folha de São Paulo sobre o tema, com a foto de capa de um pastor chutando a imagem de Nossa Senhora Aparecida). Vendo as manifestações de intolerância feitas recentemente tanto pelo Poder Público, que em diversas cidades vem fechando terreiros ou impedindo a instalação de novos (vide casos no Distrito Federal ou pesquise no Google “perseguição” terreiros”) como o recente caso de tentativa de invasão de grupos evangélicos de um terreiro em Olinda (vide a matéria “Evangélicos tentam invadir terreiro em Olinda” com os links das imagens gravadas da tentativa de invasão) imagino o que nos espera na metade deste século. Não damos a devida atenção ao caso porque nosso pensamento coletivo é que somos um país tolerante, com situações como esta só ocorrendo no exterior. Pesa também nosso bom e velho preconceito velado, visto se tratarem de religiões dos escravos negros, por muitas vistas de forma pejorativa.

Permitiremos que uma cultura de intolerância que já existe há séculos em outros países se instale definitivamente em terras brasileiras? Negar a continuidade de cultos afros é um passo para negar nossa origem africana (o que, no meu caso, infelizmente a pele branca esconde), o que vi já acontecer em conversas com amigos lusos sobre a etnia árabe na formação do seu povo (afinal de contas, a mídia providenciou a associação de tudo que é árabe ou islâmico com terrorismo).

Faço um paralelo voltando ao tema Portugal, o qual já estudo faz um tempo. Parece que existe uma prática comum em religiões em consolidação e novas ordens religiosas em praticar atos de agressividade e intolerância contra outras religiões. Voltei a ler “A primeira Aldeia Global” que resgata com honra a importância de Portugal para a formação do mundo que hoje conhecemos. Destaco o período de ocupação árabe na península ibérica, iniciado em 711 e que permaneceu por 400 anos em terras lusas (mais 250 em terras espanholas). Pois bem, nessa sociedade criada existia uma convivência pacífica entre judeus, cristãos e mulçumanos que gerou frutos em diversas áreas do conhecimento científico. A necessidade de terminar com esta “sociedade de hereges” foi a motivação que faltava para o Papa da época criar a Ordem Templária, que aliciou cavaleiros por toda a Europa para acabar com o domínio árabe, a caminho de mais uma Cruzada. Não se contentavam em tomar as cidades, mas visavam o saque, o extermínio de populações locais e a destruição de qualquer traço da cultura árabe nas terras conquistadas. Engana-se que acha que a Portugal que conhecemos existia já antes do período mouro. O país foi criado a partir desta intervenção da ordem religiosa católica, para a instituição de uma nação cristã modelo.

O Brasil empurra seus problemas de preconceito racial e intolerância religiosa para debaixo do tapete, mantendo o falso discurso da amabilidade, receptividade e convívio pacífico de seu povo. Precisamos hoje começar a discutir os aspectos gerais desta questão, sob pena da coisa toda ficar grande demais e sem chance de controle. Hoje vemos a invasão de terreiros. Permitiremos que isto continue, passando também para centros espíritas, mesquitas e sinagogas, antes de deixarmos a hipocrisia de lado em favor de um diálogo necessário?

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